:: História
Histórico do Departamento de Hemodinâmica da SOCERJ / SOHCIERJ
(Overview of the Hemodynamics Department, SOCERJ / SOHCIERJ)Introdução
Ao ensejo das comemorações do 15º aniversário da
Sociedade de Hemodinâmica e Cardiologia
Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro
(SOHCIERJ), apresentamos de forma sucinta a
evolução dessa especialidade nesta Cidade. A história
da Cardiologia Intervencionista do Rio de Janeiro
confunde-se com os primórdios da hemodinâmica
nacional e é parte integrante e atuante na evolução da
prática da especialidade no país.
Início da Intervenção no Rio de Janeiro:
marcas do pioneirismo
Em fins de 1949, Arthur de Carvalho Azevedo realiza
o primeiro cateterismo cardíaco no Rio de Janeiro, no
Hospital Nossa Senhora das Vitórias, que fazia parte
do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos
Comerciários (IAPC), hoje Instituto Nacional de
Cardiologia do Ministério da Saúde1,2.
A primeira coronariografia não seletiva, com oclusão
de ambas as veias cavas, foi realizada por Stans Murad
Netto, em 19632. Em novembro de 1966, José Eduardo
Sousa, em São Paulo, realiza a primeira coronariografia
seletiva; e no Rio de Janeiro, Mason Sones, da Cleveland
Clinic, a convite de Arthur de Carvalho Azevedo,
realiza-a em julho de 1967 no Hospital Nossa Senhora
das Vitórias2,3. Acompanhando esse exame estavam
os médicos Carlos Américo Lucena Costa e Armando
Ney Toledo que, nessa mesma semana, absorvendo
os ensinamento de Sones, iniciam-se na realização de
coronariografias.
Em 1980, Leslie Albuquerque Aloan et al. publicam o
primeiro livro na especialidade em português - “Hemodinâmica e angiocardiografia: obtenção de dados,
interpretações e aplicações clínicas” 4.
Os procedimentos de valvuloplastia pulmonar têm
início na década de 80. Rosa Célia Pimentel Barbosa
relata, em 1987, ter iniciado sua experiência em
dezembro de 19845. De forma quase concomitante,
Francisco Chamié (por comunicação pessoal 2009) e
Marco Aurélio Santos dão início aos seus primeiros
relatos6. Destaque nas intervenções em cardiopediatria
deve ser atribuído ao tratamento das coartações da
aorta, realizados por Marco Aurélio Santos e Luis
Carlos Simões, no Instituto Nacional Cardiologia7. Sem
perder o foco no desenvolvimento da hemodinâmica
em pediatria, Rosa Célia Pimentel Barbosa, em 1996,
toma a frente de um audacioso projeto para o
tratamento de crianças carentes, denominado Pró-
Criança Cardíaca.
A valvoplastia aórtica foi implementada no Brasil, em
1987, pelo cardiologista brasileiro Paulo Rocha8,
radicado na França que, junto com Norival Romão,
iniciam os primeiros procedimentos9,10. Nesse mesmo
período, Rafael Nonato Pzrytyk auxilia um dos
franceses8 na realização de um procedimento de
valvuloplastia aórtica.
Os procedimentos de valvoplastia mitral foram
iniciados em julho de 1987, por Edison Carvalho
Sandoval Peixoto11,12. Em período subsequente, Rafael
Nonato Pzrytyk13 e Norival Romão iniciam sua
experiência. Kenji Inoue vem ao Brasil em 1990, e
realiza no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1990, o primeiro procedimento dessa técnica, auxiliado por
Edison Carvalho Sandoval Peixoto, que absorve a
técnica e realiza, no mesmo dia, o segundo
procedimento, auxiliado por Paulo Sergio de Oliveira14,
com supervisão do próprio Inoue.
Na primeira metade dos anos 80, cardiologistas e
radiologistas intervencionistas realizam embolizações
e angioplastias periféricas. Os cardiologistas Mario
Salles, Ronaldo Villela, Milton Godoy y Godoy e
Edison Carvalho Sandoval Peixoto realizam
embolização para tumores renais e hemorragia
digestiva, e angioplastias renal e de outras artérias
periféricas, relatando, a seguir, sua experiência15-18. Nos
dias de hoje, a intervenção periférica em artérias
renais, carótidas e membros inferiores fazem parte do
dia-a-dia do cardiologista intervencionista, uma vez
que a grande experiência em procedimentos
coronarianos é facilmentetransportada para esses
procedimentos, sem necessidade de uma curva de
aprendizado com o manuseio do material.
A primeira angioplastia no Brasil foi realizada por
Constantino Costantini, em 197919, em Curitiba (PR)
e, no Rio de Janeiro, por Pierre Labrunie e Mario Salles
Netto15,18. Paralelamente, Paulo Cesar Monteiro de
Carvalho contribuiu para o desenvolvimento inicial
dessa técnica20, relatando inclusive a intervenção no
infarto agudo do miocárdio. O implante de stent
coronariano teve o seu início no ano de 1991, com o
implante de um stent Gian-Turco Robin, por Ronaldo
Vilella, em uma condição de emergência, devido à
dissecção e oclusão de artéria coronária circunflexa.
No mesmo período, Cyro Vargues Rodrigues e
Edmundo André Viveiros Pessanha iniciam sua
experiência, dando grande visibilidade ao método.
A implementação dos stents farmacológicos, no Estado
do Rio de Janeiro, ocorreu de forma tão meteórica que
fica impossível determinar a sua primeira utilização.
Entretanto, sabe-se que proporcionalmente, o Rio de
Janeiro é a capital que mais utiliza essa forma de
tratamento da doença arterial coronariana.
Na pesquisa e início da terapia com células-tronco, o
Rio de Janeiro se destacou com grande participação
de Hans Fernando Dohmann, Antonio Manoel Neto,
Rogério Moura, Stans Murad Netto, entre outros.
Finalizamos essa primeira parte histórica relembrando
grandes mestres que não podemos deixar de
mencionar. Até a década de 70 as doenças eram pouco
conhecidas, como as endomiocardiopatias que tiveram
seu diagnóstico clínico e perfil hemodinâmico
estabelecidos graças ao pioneirismo de Nelson Botelho
Reis e Cantídio Drumond Neto. Ambos, na 6.ª
Enfermaria do Hospital Geral da Santa Casa de
Misericórdia (RJ), realizaram não somente esse
trabalho mas também foram responsáveis, pela
formação de conceituados cardiologistas e
intervencionistas no Rio de Janeiro21,22. Outro grande
mestre da intervenção foi Siguemituzo Ariê que, na
década de 80, no Instituto do Coração, em São Paulo,
disseminou o ensino prático da angioplastia e outras
intervenções para grande parte dos intervencionistas
do Rio de Janeiro e do Brasil.
Criação da SOHCIERJ
Em 1994, durante a presidência de Francisco Manes
Albanesi Filho, a SOCERJ, em Assembleia Geral no
seu Congresso anual, aprovou a criação do
Departamento de Hemodinâmica e Cardiologia
Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro e sua
primeira diretoria. Seu primeiro presidente foi Edison
Carvalho Sandoval Peixoto, tendo José Carlos
Monteiro de Mello e Francisco Cabral Cardoso como
secretário e tesoureiro, respectivamente. Coube a esses
intervencionistas a elaboração e a aprovação do
estatuto do Departamento de Hemodinâmica e
Cardiologia Intervencionista, começando já com todos
os sócios do Estado do Rio de Janeiro na Sociedade
Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia
Intervencionista, nas suas respectivas categorias.
Em 17 de dezembro de 1995, no Hotel Glória, realizou-se
o I Congresso de Cardiologia Intervencionista – Uma
Abordagem Direcionada ao Clínico, tendo como
presidente Esmeralci Ferreira. Esse Congresso foi o
pioneiro no Brasil em realizar o intercâmbio científico
entre cardiologistas clínicos e intervencionistas. Foi
também o primeiro congresso em que houve um
Simpósio paralelo de enfermagem e tecnólogos em
hemodinâmica.
Em 1996, Leslie Aloan, eleito presidente do
Departamento, para maior independência
administrativa e econômica, transforma o
Departamento em Sociedade de Hemodinâmica e
Cardiologia Intervencionista do Estado do Rio de
Janeiro. Desde a fundação da SOHCIERJ, o presidente
do Departamento e da Sociedade tem sido o
mesmo.
Em 1998, foi eleito presidente Helio Roque Figueira
que retomou as atividades científicas, mas dessa feita
com o Simpósio de Hemodinâmica ocorrendo dentro
congresso da SOCERJ. Iniciam-se, nessa fase, os
eventos com apresentação de casos ao vivo, direto dos
laboratórios de hemodinâmica.
Em 2000, foi eleito presidente Rafael Nonato Pzrytyk.
Nesse período, a Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI) decide que o
presidente da SOHCIERJ passe a ser o representante
regional dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito
Santo. Nessa fase, o Simpósio regional foi um evento
pré-congresso da SOCERJ, com grande audiência; no
ano seguinte, o Simpósio ocorreu dentro do congresso
da SOCERJ, simultâneo a outras sessões, não tendo
sido bem-sucedido.
Em 2002, Cyro Vargues Rodrigues assume a presidência
e, na sua gestão, o Simpósio voltou a ser uma atividade
pré-congresso. Houve uma grande reestruturação
interna e a SOHCIERJ, progressivamente, aumentou
a sua presença dentro da SOCERJ. Durante sua gestão,
realizou-se na cidade do Rio de Janeiro o XXIV
Congresso da SBHCI, presidido por Esmeralci
Ferreira.
Em 2004, Julio César Machado Andréa presidiu a
SOHCIERJ. As reuniões passaram a ser periódicas,
com grande participação de todos os sócios, além
do Simpósio pré-congresso da SOCERJ, o que
aumentou a troca de experiência e aproximou ainda
mais os intervencionistas do Estado do Rio de
Janeiro.
Em 2006, foi eleito presidente Luis Antonio Ferreira
de Carvalho. Na sua gestão foi eleita a cidade do
Rio de Janeiro como sede do congresso da SBHCI
e da Sociedade Latino-Americana de Cardiologia
Intervencionista (SOLACI).
Em 2008, foi eleito presidente Esmeralci Ferreira. No
ano de 2009, o X Simpósio terá pela primeira vez a
participação especial da Academia Nacional de
Medicina (ANM), com grande intercâmbio entre
hemodinâmica e cardiologia clínica e os imortais da
ANM. Neste ano de 2009, pela quinta vez, o Estado
do Rio de Janeiro será a sede do congresso da
SBHCI.
Na gestão atual, a evolução do site (http://www.sohcierj.org.br) tornou-se expressiva graças ao
dedicado e solitário trabalho de Edgard Freitas
Quintella. Da mesma forma, teve início as
comunicações impressas através do Jornal da
SOHCIERJ, sob a responsabilidade dos editores
César Rocha Medeiros e José Ary Boechat, diretor de publicação e diretor científico,
respectivamente.
Finalmente, uma outra meta para os dias atuais, é a
unificação da SOHCIERJ e do Departamento de
Hemodinâmica da SOCERJ como entidade única
perante as Sociedades Brasileiras de Cardiologia, a de
Hemodinâmica e da própria SOCERJ.
Resumo dos Congressos de Intervenção, ocorridos
no Rio de Janeiro e seus presidentes:
Neste ano de 2009, dois grandes eventos estão
programados para o mês de junho. No primeiro, Helio
Roque será o presidente do XXXI Congresso da SBHCI,
com grandes nomes do cenário nacional e internacional.
E, abrindo o Congresso da SOCERJ, o X Simpósio da
SOHCIERJ trará pela primeira vez a presença da
Academia Nacional de Medicina no aniversário de
180 anos de sua fundação.
Este editorial, cujos autores estão listados em ordem
alfabética, foi produzido com o objetivo de resgatar a
memória dos fatos mais marcantes da história da
intervenção carioca e fluminense e da criação da
SOHCIERJ. Como a memória e algumas poucas
referências servem como escassa fonte de consulta,
desculpamo-nos com aqueles que não foram citados.
Em nome de todos os intervencionistas testemunhamos
que o mais gratificante para todos é a percepção do
grande desenvolvimento da cardiologia do Rio de
Janeiro e sua efetiva participação na cardiologia
brasileira.
Agradecimentos
Nossos agradecimentos a todos os ex-presidentes da
SOHCIERJ que conduziram essa Sociedade de maneira
competente e ética, o que é demonstrado pela sua grande
organização. Agradecemos ainda a todos os ex-presidentes
e à atual gestão da SOCERJ, sob a presidência da Dra. Maria
Eliane Campos Magalhães, e uma homenagem especial ao
Dr. Francisco Manes Albanesi Filho, pelo grande incentivo
no início da nossa Sociedade. Ao Dr. Ronaldo de Souza Leão
Lima, pela cessão deste espaço na Revista da SOCERJ e,
finalmente, a todos os sócios da SOCERJ e SOHCIERJ, pelo
grande apoio a todas as atividades da SOHCIERJ.
Referências:
1. Abrantes IB. Considerações históricas sobre a
cardiologia no Estado do Rio de Janeiro. Rev SOCERJ.
2005;18(2):96-100.
2. Aloan LA. Considerações históricas sobre a cardiologia
no Estado do Rio de Janeiro. Rev SOCERJ.
2005;18(4):278-82.
3. Albanesi Filho FM (org). 50 Anos de história da
cardiologia do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
SOCERJ; 2005.
4. Aloan L. Hemodinâmica e angiocardiografia: obtenção
de dados, interpretação e aplicações clínicas. Rio de
Janeiro: Atheneu; 1980.
5. Barbosa RCP, Baptista EM, Andrea JCM, et al.
Valvuloplastia pulmonar. [Abstract]. Revista de Resumos
do 4º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado
do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro; 1987:51-52.
6. Santos MA, Simões LC, Rezende AE, et al. Valvuloplastia
pulmonar. Análise da relação diâmetro do balão/
diâmetro do anel no sucesso do procedimento. [Abstract].
Rev SOCERJ. 1989;2(supl I):24.
7. Santos MA, Simões LC, Resende AE, et al. Coartação de
aorta no neonato: Nova perspectiva com angioplastia
transductal. [Abstract]. Rev SOCERJ. 1989;2(supl I):24.
8. Cribier A, Rocha P, Savin T, et al. Is percutaneous
transluminal valvuloplasty a good alternative to surgical
valve replacement in aortic stenosis in elderly patients?
Arq Bras Cardiol. 1986;47:97-100.
9. Romão N, Pessanha EAV, Zaniolo W, et al. Dilatação por
balão de estenose valvular aórtica em pacientes idosos.
[Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1987:49 (supl I):101.
10. Romão N, Pessanha EA, Abrão C, et al. Aortic valve
stenosis. Dilatation with balloon catheterization. Arq
Bras Cardiol. 1988;51:391-95.
11. Peixoto ECS. Valvoplastia mitral por via transeptal. Uma
nova técnica de tratamento da estenose mitral. Ars
Curandi Cardiol. 1987;9(71):9-10.
12. Peixoto ECS, Baptista EM, Vieira WJM, et al. Valvoplastia
mitral por via transeptal. Resultados e experiência do
primeiro ano. Rev SOCERJ. 1988;1:37-44.
13. Przytyk RN, Carvalho LA, Feres JGF, et al.
Valvuloplastia mitral percutânea com cateter-balão
no tratamento da estenose mitral. [Abstract]. Arq Bras
Cardiol. 1990;55(supl B):189.
14. Oliveira PS, Peixoto ECS, Labrunie P, et al. Valvoplastia
mitral pela técnica de Inoue. Primeiros casos no Brasil.
[Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1990;55(supl B):202.
15. Villela RA, Labrunie P, Salles Netto M. Dilatação
transluminal de coronárias, renal e artérias periféricas.
Relato de 6 casos. [Abstract]. Revista de resumos do 6º
Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e
Angiocardiografia. Maceió: 1981;22.
16. Peixoto ECS, Baptista EM, Godoy MG, et al. Terapia
invasiva em hemodinâmica e radiologia intervencionista.
Angioplastia renal, ilíaca, femoral e poplítea. Embolização.
[Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1987;49(supl I):107.
17. Peixoto ECS, Vieira WJM, Baptista EM, et al. Angioplastia
de artéria ilíaca, femoral, poplítea e renal. Resultados
imediatos e evolução. Rev SOCERJ. 1989;2:33-40.
18. Salles Netto M, Villela R, Labrunie P. Nossa experiência
em angioplastia transluminal de artérias coronárias e
renais. [Abstract]. Revista de resumos do 8º Congresso
Brasileiro de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Foz
do Iguaçu: 1984;33-34.
19. Costantini C, Garcia DP, Pesarini A, et al. Arterioplastia
coronária: aspectos técnicos, hemodinâmicos e
metabólicos. Relato de caso. [Abstract]. Revista de
Resumos do 4º Congresso Brasileiro de Hemodinâmica
e Angiocardiografia. Rio de Janeiro. 1979: 28-29.
20. Carvalho PCM, Brito CEJP, Sousa EM, et al. Angioplastia
percutânea transluminal no infarto agudo do miocárdio.
[Abstract]. Revista de resumos do 9º Congresso Brasileiro
de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Fortaleza:
1986;13-14.
21. Drumond Neto C. Endomiocardiofibrose. Tese de Livre-
Docência. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio
de Janeiro; 1970.
22. Reis NB, Drumond Neto C, Soares RVG. Endocardiopatias
crônicas. In: Benchimol AB, Schlesinger P (eds).
Enciclopédia Médica Brasileira. Rio de Janeiro: Livro
Médico; vol 2, seção 5; 1978.
Última
atualização em 09.04.2012